Textos selecionados em roteiros

QUEM PERGUNTA QUER SABER Arthur Azevedo

No terraço, o Machado e sua esposa, repinpados em cadeiras de balanço, fazem o chilo de saboroso jantar.

Ela – Ó Machado?

Ele – Vai dizendo.

Ela – Que coisa é essa de centenário da abertura dos portos?

Ele – Quer dizer que há 100 anos os portos foram abertos.

Ela – Mas que portos?

Ele – Os portos do Brasil.

Ela – Então os portos do Brasil foram abertos.

Ele – Foram.

Ela – Dantes eram fechados?

Ele – Certamente que sim; se não fosse não poderiam ser abertos.

Ela – O nosso porto, o porto do Rio de Janeiro, por exemplo, era fechado?

Ele – O nosso porto e os outros – o porto de Santos, o porto da Bahia, o porto do Pará…

Ela (continuando) – O Porto Alegre, o porto das caixas, o porto novo do Cunha…

Ele (interrompendo-a) – Cala-te! Não digas asneiras! Falo dos grandes portos.

Ela – Mas vem cá Machado… porque é que eles estavam fechados?

Ele – Estavam fechados porque não estavam abertos.

Ela – E não estavam abertos porque estavam fechados. Fiquei na mesma. O que quero saber é como eles estavam fechados! Sei como se fecha uma porta, mas não sei como se fecha um porto!

Ele – É estilo figurado, minha tola! Não se diz que uma questão está aberta? Não se diz que uma discussão está fechada? Não quer dizer que havia uma chave para abrir a questão ou a discussão… assim um porto pode estar fechado, percebeste?

Ela – Não.

Ele – Valha-te Deus! Não sei o que aprendestes nas Irmãs!

Ela – Bom, não é preciso ficar de cara fechada!

Ele – Ora, aí tens! Cara fechada! Estilo figurado! Estou de cara fechada, mas não preciso de chave para abri-la! Que quer dizer cara fechada? Cara de alguém que se zanga! Há diversos modos de estar fechado! Uma discussão, uma cara, um porto não podem estar fechados pelo mesmo processo ou pelo mesmo sistema que um quarto ou uma gaveta! Está visto que não se põe uma tranca nem um cadeado num porto!

Ela – Bom, não insisto (a parte). Ele sabe tanto como eu o que é um porto fechado.

O Doutor (entrando) – Ora, muito boa tarde! Cheguei a tempo para o café?

Ela – Ora papai, chegou a deixa! Ele aí vem (entra criado com uma bandeja na mão e serve).

O Doutor – Vim hoje um pouco mais tarde, porque fui ver um doente e não me demoro porque o tempo está se fechando.

Ele (a ela) – Ouves? “O tempo está se fechando”. Quede a chave do tempo?

Ela (de mau modo) – Basta!…

O Doutor  – O que é isso? Vocês estão a disputar?

Ele – Não faça caso, meu sogro, ela…

Ela – Deixe-o falar, papai, ele… o caso é este: como é hoje centenário da abertura dos portos, eu perguntei-lhe o que são portos abertos; ele não me soube explicar, começou a falar à toa, eu impacientei-me…

O Doutor – A explicação é fácil! Portos abertos são aqueles em que é permitida a entrada de embarcações estrangeiras e portos fechados são aqueles onde as embarcações não podem entrar.

Ela – Ah! Isso sim! Agora sim, senhor! Agora sei o que é um porto aberto! Obrigada, papai!

Ele – Ufa…

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